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EX NUNC, um romancete - 10ª Sessão

  • Foto do escritor: Algum Lucas
    Algum Lucas
  • 5 de mar. de 2020
  • 5 min de leitura

Atualizado: 21 de abr. de 2020

10ª Sessão

Oi, oi, tudo bom? Aqui o cheque, os papéis. Um segundo, deixa eu sentar aqui. De-de-desculpa, é q-que... é q-(que ódio, n-não consigo parar de ch-chorar).

...

Uff... (Inspira... expira... insp-) por quêêê?...

...


Uf-uf-uf, vai, agora eu consigo, obrigado. Tem mais papel? (Inspira...) Graças a deus... achei que não ia conseguir parar de chorar nunca. Vou me deitar, um segundo. (Expira...) Uf... Essa semana tá difícil... Perdão, perdão, desculpa ter desperdiçado um tempo agora, mas foi só entrar aqui que parece que lembrei como fazia pra chorar. Meus deuses... Já peço desculpa pelos papéis que trouxe essa semana, vão estar meio repetitivos, sem graça...


Bom, o que aconteceu foi que eu não sei o que é feito da Júlia. Não me atende, não me responde, tentei duas vezes passar na casa dela já, mas aquele merda do Luigi aparece e fica fazendo fita de bad boy de novela, que vai me bater se for preciso e "deixa minha irmã em paz, brother, é muita areia pro teu fusquinha. Some daqui!", não aguento aquele verme, cruzes... Enfim, me fodi. Pelo jeito ela surtou mesmo e não tem volta. Fico me dizendo que vou esperar mais uma semaninha, que ela pode ter se assustado com a coisa toda do cigarro, de talvez isso ter botado nela mesma uma pressão de superar os próprios limites e aí foi demais, sabe? Não que isso importe agora, porque no dia seguinte já, semana passada, quando deu nove horas da noite e ela ainda não tinha me ligado, resolvi ser eu a pessoa maior e preferi ligar. Nada. Uma, duas, três, cinco vezes e nada. Aí eu falei "ah, quer saber? que se foda" e já acendi um.


Então, isso é curioso. Não que eu tivesse me planejado, sabe? Porque até aquele dia eu tava sem cigarro mesmo, mas à tarde, na volta do trabalho, como tava irritadão (sem pensar mesmo, sabe?), fui de impulso na padaria e já comprei um maço de cigarro. Fiquei tipo aquele Shakespeare famoso, com a caveira na mão, pensando ser ou não ser — mas no meu caso era literalmente um Zé-ninguém, olhando fixamente pra um maço de cigarro, pensando acender ou não acender, eis a questão. Complicado, viu? Até aquele dia, nunca tinha imaginado que dava pra querer tanto assim alguma coisa na vida. Juro pra você que tava no ponto assim de eu trocar um rim por um cigarro, ali mesmo. Mas eu resisti ainda, foi de foder, achei que nunca mais ia fumar, lembrei dum amigo meu, lá de cima, e ri pensando que eu era "arretado que nem cabra da peste." Ah! E foi esse meu amigo até — deixa pra lá isso, só tô querendo mudar de assunto, certas coisas a gente tem que falar, não tem jeito.


Aí eu fumei. Chegou a noite, eu fumei. Dá-lhe um e dois e foi o maço. Nem duas horas e carbonizei a porra toda. Só que aí eu tava descontrolado já. Peguei a chave do carro, encostei no mercado que fica até meia-noite aberto, ali perto de casa, e já arrematei o pack de dez. Se é pra voltar a fumar, tem que voltar direito, pô. Não adianta ficar também me iludindo e acabar comprando maço mais caro em padaria, todo dia. E já tá nos finalmentes aqui o pacote. A coisa tá braba. Assim, não pior do que antes (ainda), mas essa semana tá foda. Eu tô pensando aqui, acho que não vou desistir, porque sei que eu consigo, mas ao menos diminuir já era uma boa. Reduzir primeiro pra uns dez no dia, depois cinco, aí três... Devagar mesmo, sabe? Porque tem que ser realista. Se eu ficar nessa de querer mudar tudo radicalmente, assim, de uma vez, qualquer soluço já vira motivo de crise, de recaída. Aí é aquela frustração toda de novo...


(É difícil a vida às vezes, né?) Mas vamos lá... devagar e sempre. Acho que não tenho mais muito pra falar hoje, não. Tô só impressionado com o como eu fui do megatriste (de chorar sem nem conseguir falar direito) pro megaputo recalcado, me coçando pra fumar um cigarro. Às vezes eu sinto que só tem raiva dentro de mim, sabe? Nessas horas eu penso se não é mais inteligente mesmo dar uma de Pedro e resolver os problemas da vida com a pistola. Foda é que eu tento ser cético e tudo o mais, mas (admito) tenho medo de existir alguma coisa do lado de lá (ou só um lado de lá mesmo). Aí é mais fácil ficar por aqui. Sei que é errado pensar assim, mas sem a Júlia, que era uma das únicas coisas boas na minha vida, pra que parar de fumar? Claro que sei que deve ser por mim mesmo a mudança e tudo o mais, só que esse negócio de selfimprovement é coisa de empreendedor gringo high stakes, e eu quero é ser comediante, sabe? É até bom, na verdade, ter um vício meio artístico desses. E é melhor fumar do que beber. O câncer te mata com dignidade, numa caminha limpa de hospital. Eu diria que é bem melhor do que morrer na sarjeta ou levando alguém junto no trânsito.


Enfim, tô divagando aqui. Por hoje é isso, vamos encerrar aqui mesmo, porque não tô pra papo e tô me coçando pra acender um cigarro pra pensar. Espero que os textos não te deprimam (brincadeira). Bom, até semana que vem. (E juro que vou tentar já reduzir os cigarros, a partir de amanhã, já).


Anexo: Textos que Zé trouxe à 10ª Sessão



Morte

Morte, ó, a Morte.

Nunca pensei que fosse doer assim tão forte.

Tivesse ocorrido de outra sorte

— não que isto agora importe —,

ter te amado não seria crime sujeito à pena de

Morte, ó, a Morte.




Bit Nem sempre fui feminista


Esses dias eu tava numa daquelas horas de contemplar o teto e lembrar da vida, sabe? Aí, deu que me lembrei duma namoradinha de colégio, dos tempos de adolescente, quando a gente pensa que a vida era a morte, mas na verdade era um passeio no parque — com muita espinha e de pau duraço, mas um passeio no parque, por bem ou por mal. Vamos dizer que nome dela era Anita Passione. Pois é, não sei se vocês tinham percebido, mas aparentemente eu cresci no México, na vila do Chaves — ou chavito, como nosotros hablávamos lá no bairrito. Memória vai, memória vem, lembrei que ela era meio maluca, que já tinha arremessado copo de vidro em mim e tudo o mais, tenho essa cicatriz aqui até hoje, ó. Era coisa de problema em casa, pais com separação conturbada, irmão descontando nas drogas e coisas do tipo — o kit Problemas da Juventude 1. (O meu era o 2, que vinha com tragédia na família e a atividade — em perfeitas condições até em enterro domingo de manhã — do el pingolito indomable). Aí, pô, era loucura essa nossa passión. Ela brigava com os pais e ficava ensandecida, só queria transar e me xingar, arranjar problema e tudo o mais. E eu me lembro que na época eu não era feminista ainda, igual hoje, e eu achava que ela era tarada e que ia me trair porque gostava muito de meter e tal. Aí, contemplando aquele belo teto bonito (talvez com, talvez sem a mão no amiguito), lembrei de um dia que a gente transou tanto que meu pau ficou inchado — sem sacanagem, juro por deus! E como eu sou uma pessoa muito ligada ao social, de tudo isso o que me veio foi a reflexão: como pode alguém ser contra a liberdade sexual da mulher, meus amigos? A gente tem é que ser contra lares felizes!


[Pausa grande para muitas risadas]


Depois de tudo isso, ainda quero deixar um dilema moral pra vocês refletirem de dever de casa aqui: é errado fantasiar com memórias da adolescência? Porque, de certa forma, na época você era adolescente, mas quem tá curtindo é o você de agora. Fica esse dilema aí pra vocês pensarem em casa. Obrigado! Muito obrigado! Boa noite, [nome da cidade]. [Saio do palco].



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